O FANTASMA DA QUANTOFRENIA[1]
NAS PÓS-GRADUAÇÕES: PERVERSÕES SÁDICAS[2]
COMO PRÁTICA POLÍTICO-PEDAGÓGICA[3].
O tema da “avaliação” e da “qualidade”
está em moda atualmente – quase que como sinônimos. Estruturas e políticas
perversas, sádicas, estão sendo implantadas paulatinamente em nossas vidas no
cotidiano das instituições. E como tal, elas não estão sendo refletidas. As Pós-Graduações,
inclusive a nossa, vêm defendendo uma concepção perversa, de punição e de retaliação,
como fazer político-pedagógico, mas não reconhecem essa prática. Não se vê
nessa prática. Isso não é novo na história. Quantos ex-escravos no Brasil
Colônia se aliaram às instituições da Casa-Grande e ao sistema repressivo policial
e passaram a combater (“dedurar” e participar de práticas violentas) os seus
irmãos?[4] Se
tomarmos, também, o nazismo e os torturadores a serviço dos governos militares/civis
e seus apoiadores no Brasil, nenhum destes reconhece que fez o mal. Dependendo
do grau de compromisso com essas instituições mortíferas, uns, plenamente,
desconhecem seu envolvimento; outros, que as defendem abertamente, argumentam
que lutavam contra um mal maior e, portanto, as violências e os assassinatos
foram necessários.
Docentes, não se sintam agredidos
por tal comparação. Óbvio que vocês não são nem torturadores e nem nazistas, e
nem capatazes – nem conceitualmente, nem historicamente e nem politicamente.
Contudo, temos que aceitar: a lógica estruturante é a mesma. Isso é o que
importa para a análise e a auto-análise. Por isso, Félix Guatarri, diz-nos que
“Hitler ainda está vivo”: “nos sonhos, nos delírios, nos filmes, nos
comportamentos torturadores dos policiais...”.[5]
Assim, o mesmo ocorre com essa
política de “produtividade”, de “qualidade”, das instituições. Aplicam as
políticas, mas não assumem as suas consequências. Bresser Pereira, ideólogo e
coordenador das políticas neoliberais no Brasil, agora, escreve contra as
políticas neoliberais com o mesmo afã com que a defendia. Cínico, escroto (Titãs,
belo rock transgressor), cara de pau? Um pouco disso tudo e, talvez, algo mais.
O professor português, Doutor Almerindo J. Afonso, da Universidade do
Minho, que esteve aqui recentemente, proferindo uma palestra, questionou,
indagou: “pra que avaliar”? Disse ele: “os docentes nem mais se indagam hoje
sobre isso, apenas discutem qual a melhor avaliação” (citação de sentido e não
literal). Imediatamente todos olharam pra mim porque defendi recentemente o FIM
da avaliação, da nota e da chamada – infelizmente não dá para teoricamente
desenvolver a tese do “fim” da avaliação aqui. No momento contemporâneo não se
pode discutir o “FIM” nesse período fantasmático, pois está “proibido”
blasfemar, romper com o sagrado (resultado e produtividade).
Na verdade, entendo a avaliação
como uma instituição imaginária social (um fantasma, no sentido castoriadiano)
que está nos assombrando, fazendo parte de nossas vidas, como se existisse a
priori e não fosse nossa criação imaginária[6] –
evidentemente, inventada e fortalecida pelas grandes organizações midiáticas, pelos
Estados e pelas empresas. Delírios, delírios, delírios são a avaliação.
Ora, como delírio, quem criticar a
avaliação será percebido, certamente, como um “inimigo”, uma ameaça e um
“incompetente”, um “incapaz”. Na verdade, as pessoas estão incorporando sua
“incompetência” e estão incapazes de reagir aos fantasmas: frequência, pontos,
hierarquizações de veículos, tempo controlado (mas são de corpos biológicos,
têm uma narrativa cronológica, psíquica, cultural e política), exposição
pública como incompetente.
Se pensarmos direito, como estamos
dominados pelo “fantasma”, nós não “publicamos”, somos “publicados”.
Completamente dominados pela imaginação do chicote da “avaliação” – lembro-me
de Edilson Fernandes -, não mantemos uma relação com o tempo, mas somos
“temporalizados” pelos prazos; não produzimos saberes, somos dominados pelas
palavras que precisam ser ditas, a qualquer custo, mesmo que não tenhamos
grande coisa a dizer nesse momento, mas se exige que se diga; não mantemos um
diálogo com os autores, mas os cuspimos
freneticamente (Ah! Que saudade de Augustos dos Anjos!) para sermos
reconhecidos em alguma perspectiva teórica; não temos objetos de pesquisa, mas
somos objetificados pela ditadura das exigências “acadêmicas” (!?!?).
Essa ditadura do resultado
imbeciliza-nos e idiotiza-nos cotidianamente. Como o importante é fazermos
“pontos”, pra que debate? Pra que discussão? Pra que polêmica? Pra que projeto
político-pedagógico? No máximo, um defensor ou alguém que já foi fabricado para
pensar assim atua na organização de um seminário, chamando os afiliados aos Congressos, nas
instituições, elaborando um texto, publicando e ficando na expectativa de ganhar
“ponto” – objetivo central. Não tem sentido participar de debate (ou
organizá-lo) quando não vale “ponto” (quantos docentes da Pós organizaram
debates – polêmicos - recentemente que não valem pontos?). Qual a finalidade de
um texto? O que eu quero com as minhas palavras? O que pretendo com as imagens
que estão circulando nas minhas palavras? Quem concorda comigo ou discorda de mim? O meu
texto mexeu com o coletivo humano? Isso não importa, o importante é que eu fiz “ponto”
no lattes. O vazio – o Nada – reina nas universidades hoje. Ninguém tem nada a
dizer, pois não tem mais o que dizer, já foi dito há muito tempo o que deveria
ser dito – o “tempo”, a “história” morreu ( o futuro também não existe,
morreu). Temos apenas que “produzir” palavras, no presente momento, pois é o
único tempo existente, vazias de sentido, porque o que precisa ser dito, já foi
dito há muito tempo e não há mais o que dizer. Nem o que recordar, rememorar,
porque o presente é agora, o resultado é agora, você tem que provar agora que
você merece a instituição. Passado e futuro não existem no domínio desse
fantasma – se existir, apenas, de forma utilitária (o que dá no mesmo, a morte
do tempo). Só o presente vale.
Ora, a predominância absoluta do
presente leva-nos ao utilitarismo e ao sadismo. Aqueles que querem gozar da
onipotência das produções visando ao “resultado” não podem reconhecer o Outro.
O Outro é um objeto – literal. É uma peça – é um taylorismo
mais sofisticado. Vincent de Gaulejac nos alerta de que Taylor é mais
progressista que o mais novo gerencialismo quantitativista. E como peça,
troquemo-la quando não mais nos servir. Tudo pelo resultado. Difícil de
combater essa concepção porque esse fantasma não tem corpo, não tem matéria
(são normas, instrumentos, números, dados estatísticos, resultados). Como diz
Enriquez, o grande estrategista tem que ser “cool”, frio, indiferente. Não pode
se permitir demonstrar sentimentos “femininos”. O importante é o resultado.
Conforme Dejours, que escreveu “A banalização da injustiça social”, não são os
"grandes homens” que fazem o mal, mas os medianos das organizações. São
esses que demitem, aterrorizam seus subordinados em nome dos resultados e para
serem reconhecidos pela organização. Como ele diz: “É em nome dessa justa causa
que se utilizam, larga manu, no mundo
do trabalho, métodos cruéis contra nossos concidadãos, a fim de excluir os que
não estão aptos a combater nessa guerra: estes são demitidos da empresa, ao
passo que dos outros, dos que estão aptos ao combate, exigem-se desempenhos
sempre superiores em termos de produtividade, de disponibilidade, de disciplina
e de abnegação”.
Enriquez defende que nunca o
indivíduo esteve preso nas malhas da organização e “tão pouco livre em relação
ao seu corpo, ao seu modo de pensar, à sua psique”.[7]
Há docentes na ANPED[8] que
gostam de E. Enriquez – mas este autor combate essa política e essa prática nas
organizações; alguns gostam de Boaventura Santos – este, também, denuncia e
tenta elaborar teoria que seja alternativa à globalização; uns, elogiam a Christophe
Dejours; outros admiram e louvam a Paulo Freire, mas este viveu seu pensamento; outros mais se encantam com Almerindo Afonso
e Licínio Lima; outros, ainda, com a ação
comunicativa de Habermas. Poderíamos ilustrar o que afirmamos com um
conjunto de autores que são escarrados
(lembro-me de Augusto dos Anjos) em citações nos tão propalados artigos que
valem ponto no lattes. Mas são palavras vazias, são palavras “virgens”,
“puras”, que não marcam a tinta do papel porque são superficiais. Esses e
outros autores, se consultados sobre a prática política e a concepção de
ciência e saber no cotidiano daqueles que os citam, certamente, se rebelariam,
pois não se veriam nelas. A instituição, por estar morta, e/ou dominada por
esse fantasma, ou os autores/os teóricos tornam-se sem sentido, desfigurados, apenas
retóricos, porque estão desconectados do real. A pulsão de morte está encravada na instituição universitária.
Dejours chama-nos a atenção de que
“se essa maquinaria continua a mostrar seu poderio é porque consentimos em fazê-la funcionar, mesmo
quando isso nos repugna. Mesmo quando isso nos repugnar!”. Conforme ele, esse
consentimento decorre do “sofrimento no trabalho”.[9] A perda da
esperança gradual no trabalho e a consciência de que quanto mais se dão ao
trabalho, mais se agrava a situação constroem esse consentimento à injustiça.
O domínio da presentificação do tempo não ataca apenas alguns docentes
“improdutivos”, mas os estudantes. Literalmente como objetos – estritamente
objetais-, eles sofrem – efetivamente
sofrem - toda a política deliberada
do Programa. Como coisas - e Karl
Marx chamou muito bem a atenção sobre o fetichismo da mercadoria –, os três estudantes
são tratados (!?!?) ... Ora, Se são coisas, não são “tratadas”. “Coisas” não
têm sentimentos, não pensam, não desejam, portanto não são tratadas, são
descartadas, são peças. Coisas são “avaliadas” (ou avariadas?), não precisam
ser avaliadores. Agora entendo porque os estudantes não participam do “processo
de avaliação” da instituição e dos docentes.[10] Os
estudantes, do ponto de vista dessa lógica, não
contam. Fico pensando com minha cabeça improdutiva: mas eles são a razão
de ser da instituição. Sem estudantes, existiriam as Pós? Hum! Acho que não,
pois aqui é uma Universidade. Se é assim, por que eles não são ouvidos no
processo? Por que eles não avaliam “qualitativamente” de igual para igual?
Espere aí: mas os estudantes têm
espaço na Pós, têm seus representantes, diriam muitos dos docentes. Seu
pensamento não está pensando direito. Você está sendo pensado, diriam. Será que
têm razão? Acho que não. O Estatuto da UFPE é ainda da ditadura militar: sua
concepção, sua forma organizacional e sua composição[11]. Quando
do fim do governo dos militares (e dos civis) – mas não do autoritarismo e da
hierarquização –, o País estabeleceu a Constituinte: deputados eleitos com
finalidade exclusiva de escrever as novas leis. Isso não foi à toa. O luto
precisava ser feito. Era necessária uma nova configuração social, política,
organizacional etc Não se podia administrar o “novo” com forma do “velho”. Quer
dizer que não haveria legitimidade se não se fizesse isso? A Pós tem
legitimidade? Acho que não. Ela tem legalidade, o que é bem diferente. A
ruptura com esse imaginário social da ordem autoritária é imprescindível – não
foi feito o luto na UFPE –– obviamente para quem defende uma sociedade
democrática. Quem não a defende se agarrará ao fantasma e fará dele o bastião
da qualidade e dos resultados. Então não
é em nome da Universidade e da Pós que se faz tanta violência simbólica e
efetiva? – certamente, Pierre Bourdieu diria: “Não, de todo!” O Capital
simbólico será apropriado por certos indivíduos e grupos e estes sairão
fortalecidos do processo – lá em Brasília, na ANPED, sabe-se lá. Mas, e as “mortes”
e o sofrimento psíquico? O quê? Não, isso não é importante, o importante é que
chegaremos lá. Aonde? Sei lá, chegaremos lá, ao ponto 5. Queremos mais:
queremos o ponto 7. Mas, é o máximo, o topo. O preço é muito alto. Quantos não
terão que “morrer” para alcançarmos isso? Você sabe, a vida é assim. Há aqueles
que são competentes, e outros, o seu oposto. O importante é que chegaremos lá.
Nada nos impedirá, pois isso é progresso, é racional, é desenvolvimento, é o
correto – não temos saída. A verdade estará conosco. Já ouvi essa história
antes, diriam outros. Os que sobreviverem contarão a sua história. Isso é História – afirma categoricamente o fantasma.
E aqueles que ficam esperneando? Bem, temos que afastá-los; ora, eles
esperneiam porque não são produtivos.
Essa obsessão por resultados para
sermos simplesmente reconhecidos por Brasília é um absurdo – do ponto de vista do
bom senso e do racional. As Pós não fazem discussões profundas sobre a formação
dos estudantes – do ponto de vista da formação intelectual, da “qualidade” das
disciplinas - em nosso caso, do papel e importância da Pós para Pernambuco (e
para o Nordeste) -, inexistem reflexões e projetos institucionais com o Nordeste,
pensando o Nordeste-, e, agora, pensando a América Latina (o ALAS abriu essa
possibilidade); inexiste, também, reflexão da Pós com os governos (municipais,
estaduais e federais) – na verdade, a Pós é utilizada como objeto (“coisa”) dos
governantes.
Precisamos problematizar, não
podemos ficar a reboque da quantofrenia dos governos e empresários. Precisamos
colocar nossos conhecimentos a favor do MST e de outras organizações de
trabalhadores sem terra, sem teto, sem universidade, etc – mas é preciso
vontade política para sentarmos e construirmos coletivamente, junto com todos
os estudantes da graduação e das Pós, e com os servidores, um projeto
político-social que aponte um compromisso social efetivo. A Pós do governo federal é um órgão
público (pelo menos deveria). Ela
tem que estar a serviço do nosso Povo. O seu caminho diz respeito não somente a quem faz parte dela, mas dos que estão fora.
Acho até que podemos e devemos elaborar projetos, concursos, com a finalidade
de discutirmos os graves problemas social-educacionais. Mas como poderemos
fazer isso e outras coisas se estamos escravos dos resultados, da mediocridade?
A situação social e política é
grave no contexto em que vivemos. Não podemos ser cúmplices e irresponsáveis pelos
graves problemas sociais, econômicos, éticos e ideológicos que atravessa a
Pátria nesse momento.
Essa carta é uma conclamação aos
docentes, estudantes e servidores ao bom senso, ao pensamento aberto, não
somente do CE, mas de todos que têm o direito e o dever de se posicionar
politicamente sobre as questões das instituições públicas e
os graves problemas sociais nacionais e locais. Essas questões da quantofrenia são
um problema político, e não técnico (de regras matemáticas de pontuação). Não
há como fugir da posição política. Seremos cobrados por isso. Não adianta dizer
que a culpa é da CAPES. Não podemos mais nos esconder e adotar a amnésia e a política
da avestruz como prática política.
Uma outra Pós-Graduação é possível.
Recife, outubro de 2011
Evson Malaquias de Moraes Santos
[1] Conforme
Gaulejac, “a quanttofrenia designa uma patologia que consiste em querer
traduzir sistematicamente os fenômenos sociais e humanos em linguagem
matemática”. Conferir Gestão como doença social. Idéias e Letras. (p.94)
[2] Por
sadismo entendemos aqui o exercício de violência, agressividade, de forma
genérica. Cf. Vocabulário da psicanálise
Laplanche e Pontalis.
[3] Desculpem-me
os quantofrênicos e perversos por divulgar um texto que não será publicado no
receituário médico complexo da CAPES (vitaminas
B1, B2...).
[4] Conferir
Visões da Liberdade de Sidney Chalhoub.
[5]
O sentido de policiais, conforme ele, inclue aqui, também, pedagogos, psiquiatras
etc
[6] Alguns
pesquisadores governistas comparam o
PAIUB ao SINAES (que inclui o receituário da CAPES), o que é um absurdo. O
SINAES foi imposto, o PAIUB foi iniciativa das próprias universidades. Se um
“sistema” de avaliação for criado num espírito de desejo e liberdade pela
própria coletividade instituinte, então não é mais “avaliação”, é uma outra
coisa. Não chamemos mais de avaliação.
[7] Vida
psíquica e organização. O indivíduo preso na armadilha da estrutura
estratégica. Orgs. Fernando Motta e Maria E. Freitas. FGV, 2000.
[8]
Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação.
[9] A
banalização da injustiça social. FGV, 2009.
[10] Apesar
de vinte discentes – entre eles, treze da Pós e sete de graduação que fazem
pesquisas -, os quantofrênicos não quiseram nem tomar conhecimento das
avaliações qualitativas sobre meu papel
na formação intelectual e cívica.
Esse desprezo espelha a obsessão e a desqualificação prática aos estudantes
enquanto produtores de conhecimento e como responsáveis pela existência do
próprio Programa. Na verdade, essa postura demonstra que a Pós institui aqueles
como crianças, seres infantis que precisam de tuteladas.
[11] Serei
criticado por desconsiderar a reforma do regimento em 2008. Alguns, até dirão
que eu não participei, não tenho conhecimento para tratar desse assunto. O
aglomerado de pessoas não significa que houve ação reflexiva sobre o objeto
estudado. Sabemos que as práticas e ações coletivas dos grupos e organizações
estão dominadas pelo tempo histórico.
O tempo histórico atual não é o da reflexão, da crítica e do pensamento aberto
(Castoriadis e Morin). Mas do pensamento
“único”: a quantofrenia, a redução da ciência aos índices e indicadores de desempenho.
Este é o tempo histórico que, ainda, infelizmente prevalece. Não por muito
tempo, espero. Não sou adepto do fim da história.
Nenhum comentário:
Postar um comentário