João Pessoa, 02 de julho de 2012
Ciência
precisa de maturação, que esse princípio possa ser aplicado nas Ciências
Humanas!
Os
signatários deste documento vêm respeitosamente solicitar seu desligamento do
Programa de Pós-Graduação em História da UFPB. Nossa decisão não está
relacionada de forma específica à condução realizada pela Coordenação ou ao
restante do corpo docente do Programa – excetuadas divergências de caráter
pontual, sempre presentes em quaisquer grupos de trabalho –, mas liga-se à discordância
com os rumos dos Programas de Pós-Graduação no Brasil, em nosso
Estado e na nossa Universidade. Os gestores de pós-graduação, seja por
adotarem uma posição pragmática, pressionados pelos parâmetros quantitativos
das agências de fomento que controlam a pesquisa de pós-graduação no país, seja
por acreditarem que tais parâmetros são corretos, têm levado os cursos,
os docentes e discentes à busca desenfreada pelo cumprimento de metas
quantitativas em detrimento, em nossa compreensão, de valores que devem nortear
a produção do conhecimento acadêmico e que se articulam a dimensões
qualitativas da pesquisa e da reflexão na área das Ciências Humanas. Num texto
não tão recente, mas bastante atual, intitulado Notas para a Discussão sobre
a Excelência Acadêmica, a filósofa Marilena Chauí realizou uma breve e
lúcida reflexão sobre os atuais critérios de avaliação e seus indicadores. Nele
apresenta uma série de críticas ao sistema e seus parâmetros que ranqueiam
eventos e periódicos e atribuem, a partir daí, pontuações que qualificam (ou
desqualificam) o docente e, por tabela, os Programas aos quais estão
vinculados. Apesar de não citá-lo diretamente, o referido texto inspira, em boa
medida, este documento. Reconhecemos o fato de que também somos co-responsáveis
pela situação, de um modo global, pois em diversas circunstâncias referendamos
as metas quantitativas e as reproduzimos em nossas práticas. Certamente, mesmo
a contragosto, encaminhamos certos procedimentos exigidos em função de
cobranças institucionais. Entretanto, o avanço desse processo tornou a situação
cada vez mais inflexível e nos levou a tomar essa iniciativa de desligamento formal.
Consideramo-nos profissionais sérios,
comprometidos com a universidade, com o trabalho acadêmico e com a produção do
conhecimento, e sempre buscamos em nossas atribuições, seja no ensino, na
pesquisa, na extensão ou na administração, contribuir com a melhoria cursos de
História da graduação e da pós-graduação. Nossos alunos sabem do que estamos
falando e não precisamos, aqui, dizer quem somos e porque nos colocamos contra
o produtivismo quantitativo. Não acreditamos que se faça História – uma
ciência humana do acúmulo, da maturação, da reflexão, uma escrita tão próxima
da literatura, com tanto a ver com a imaginação criativa – sem o tempo que lhe
é devido e sem propósito de dizer algo novo. Não defendemos, aqui, a
acomodação, fenômeno tão nocivo à vida acadêmica, e reconhecemos a importância
da produção científica e da publicação periódica de resultados de pesquisas –
que tem avançado, apesar dos percalços, em nosso país – mas entendemos que produção
não é sinônimo de produtivismo. Essa distorção, com seus inúmeros vícios,
mais esteriliza que permite o avanço da ciência, especialmente no campo das
humanidades. A questão fundamental é definir o que significa produção. Limitar
o reconhecimento da produção acadêmica ao vale-tudo do “publish or parish”, não
é contribuir para a inovação, é ingressar num “burocratismo” que privilegia a
busca desenfreada de rankings em vez da efetiva e qualificada produção
científica. Entre outras questões, a criação de programas de pós-graduação deve
se dar em consonância com a graduação, sendo que essa segunda não pode
tornar-se tão somente um apêndice ou uma espécie de “etapa preparatória” da
primeira. A pós-graduação deve significar um desenvolvimento da graduação e não
uma negação dela. Nesse sentido, relegar a graduação e o ensino a um status
menor é um equívoco extremamente danoso e que pode solapar as bases de formação
qualificada de profissionais em diversas áreas.
Deve-se
observar a estrutura de cada programa de pós-graduação e sua forma de inserção
na sociedade no seu entorno, para se avaliar inserindo critérios de ponderação,
que não tornem os parâmetros uniformes e inflexíveis. Cada região do país
possui suas peculiaridades e não se pode ter uma medida que desconsidere isso.
Um pequeno exemplo pode ser apresentado: na realização de eventos há uma
pontuação que desqualifica aqueles de caráter local ou regional e valoriza os
nacionais ou internacionais. Em suma, todas essas questões, num país das
dimensões do Brasil, exigem uma definição de critérios que não funcionem como
“desculpas”, mas que permitam avaliar para além de parâmetros rigidamente
lineares. Considerando, especificamente, um Programa como o nosso, que tem como
seu escopo fundamental questões ligadas à história regional e ao ensino da
disciplina, priorizar critérios que não levem esses aspectos em conta na sua
avaliação contradiz a própria essência que norteou a criação do mesmo. Isso não
implica em qualquer forma de xenofobia, mas em reconhecer que os critérios
valorativos aplicados estão também relacionados a lócus de poder que
ultrapassam o aspecto puramente científico. Também há de se respeitar as
peculiaridades de cada campo do conhecimento, pois não é possível mensurar a
produção na área das ciências humanas, tendo como parâmetro a produção
científica e tecnológica das áreas das ciências exatas. Mais uma vez, é preciso
considerar as diferenças e peculiaridades inerentes a cada situação, mesmo
mantendo o rigor e a seriedade necessários ao processo avaliativo. Os docentes
que assinam este documento, não concordam com a preponderância quase absoluta
do critério hoje considerado imprescindível nas avaliações dos Programas de
Pós-Graduação: a produção e publicação de artigos num sistema que prioriza
aspectos essencialmente quantitativos. Para realizá-los com a qualidade que
exigimos de nós mesmos, para que sejam textos originais e que contribuam com o
avanço do conhecimento em nossos temas, é necessário que sejam produzidos a
partir de reflexões realizadas no ritmo em que nos seja possível pensar e
escrever História. Efetivamente, com a carga de trabalho e a diversidade de
ocupações que assumimos, não consideramos a menor possibilidade de cumprir, com
qualidade, tais metas quantitativas. Com certeza, as questões aqui brevemente
esboçadas – além de diversas outras sequer mencionadas – estão relacionadas a
um contexto bem mais amplo e complexo e não temos a pretensão de esgotar
qualquer uma delas ou de ter respostas definitivas. Apenas manifestamos nosso
direito de discordar de algumas condições existentes para a produção do
trabalho científico e tomamos uma atitude maturada ao longo de várias
discussões nos últimos tempos. Acreditamos que esse contexto é parte de um
difícil processo de consolidação efetiva da pesquisa e da pós-graduação no
nosso país e seria uma atitude pouca historiadora de nossa parte assumirmos o
discurso da inevitabilidade de determinadas situações “para todo o sempre”.
Certamente, os tempos que virão poderão trazer mudanças, necessidades de
ajustes, redefinição de prioridades. Dessa forma, nos mantemos disponíveis para
o debate respeitoso de posições e para colaborar direta ou indiretamente com a
pós-graduação em outras e renovadas circunstâncias.
Reconhecemos
a seriedade e compromisso das trajetórias de muitos de nossos colegas que
consideram esse ritmo de trabalhos adequado, bem como daqueles que, apesar de
não concordarem se submetem ao esforço produtivo nos moldes exigidos e que
buscarão realizá-lo de forma qualificada. São questões da diversidade de
opinião que devemos respeitar, mas com as quais não concordamos. Também não
gostaríamos de criar contratempos ao Programa, que consideramos socialmente
necessário, porque, apesar dos limites impostos pelos prazos de dissertação,
ele contribui para a formação de quadros profissionais de História no Estado da
Paraíba e no Nordeste. Por fim, informamos que não deixaremos ônus ou prejuízos
no que tange às orientações e outras atividades em andamento, apesar de
encaminharmos essa situação em ritmos e condições diferenciadas para cada um de
nós e que serão devidamente cientificadas à Coordenação do Programa.
Atenciosamente,
Ângelo Emilio da Silva Pessoa
José Jonas Duarte da Costa
Regina Célia Gonçalves
Regina Maria Rodrigues Behar
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